domingo, 14 de junho de 2009

Des-esperar

"A Felicidade, desesperadamente", de Andre Comte Sponville.

"O livro é a transcrição de uma conferência-debate apresentada por André Comte-Sponville em 1999.
Segundo o autor, a felicidade interessa a todo mundo, pois cada homem a procura, principalmente os filósofos, que desde o surgimento da filosofia a tinham como objeto de reflexão. Contudo, os filósofos da segunda metade do século XX deixaram de considerá-la um problema filosófico.
André Comte-Sponville resgata a felicidade determinando-a como meta da filosofia e a verdade como a norma da filosofia.
Isso porque, apesar de buscar a felicidade, o verdadeiro filósofo opta por uma tristeza real a uma felicidade ilusória.
O autor diz que a sabedoria é necessária por dois motivos: porque somos infelizes e porque somos mortais. Quando temos tudo para ser feliz e não somos, é porque nos falta sabedoria. E sabedoria é saber viver, aprender a viver.
Sponville cita o desejo, conceituado por Platão como aquilo que nos falta. E ser feliz é ter aquilo que desejamos. Mas no momento que temos o que desejamos, o desejo acaba, pois aquilo já não nos falta mais. Então procuramos por outros objetos de desejo.
Na medida que o desejo é falta, a felicidade é perdida?
Segundo George Bernard Shaw, há duas catástrofes na existência: a primeira é quando nossos desejos não são satisfeitos; a segunda é quando são.
O autor chama de armadilhas da esperança, porque quando esperamos a felicidade e ela não é satisfeita, sofremos e nos frustramos. Quando é satisfeita, nos entediamos e nos frustramos também. Para escapar deste ciclo o Sponville sugere três estratégias: se divertir para esquecer, alimentar novas esperanças (fuga pra frente) e depositar esperanças em outra vida (salto religioso). Apesar da sugestão, acha as alternativas insuficientes.
Entretanto, Platão, Pascal, Schopenhauer e Sartre, ao falarem dessa felicidade esperada, se esqueceram ou subestimaram o prazer e a alegria. Prazer e alegria existem quando desejamos o que fazemos, o que é, o que não falta, Sponville define isso como felicidade em ato. Além disso, para ele, Platão, Pascal, Schopenhauer e Sartre esqueceram também de separar o desejo da esperança. Para ele é possível desejar o que não falta, mas não é possível esperar o que não falta. Diferencia a esperança em três tipos: a platônica, relativa à falta, onde esperar é desejar sem gozar; a que se refere à ignorância a partir do desejo, onde esperar é desejar sem saber, afinal, nunca esperamos o que sabemos; e aquela que é um desejo cuja satisfação não depende de nós, onde esperar é desejar sem poder. Para desejar o gozando, temos o prazer. Para desejar sabendo, temos o conhecimento. Para desejar podendo, temos a ação. A esperança é um desejo que não depende de nós, enquanto a vontade é um desejo que depende de nós. Não há esperança sem temor, nem temor sem esperança. O contrário de esperar é saber, poder e gozar. Só esperamos o que não é; só gostamos do que é?.
O autor propõe uma felicidade desesperadamente. Mas que não seja o desespero do suicida, mas simplesmente uma felicidade sem esperar. Para Spinoza o sábio não tem temor, logo, não tem esperança. O autor recusa o amor conceituado por Platão como desejo do que falta, para dar suporte à definição spinozana, que trata o amor por potência, alegria. Sugere que as pessoas não amputem suas esperanças, mas que aprendam a pensar, querer mais e amar melhor. A felicidade não é absoluta, mas um processo. "


Texto extraído de http://www.netsaber.com.br/


Ótimo livro, "A Felicidade, desesperadamente", de Andre Comte-Sponville, muito bem descrito no resumo acima.
Para parar, pensar, se confortar, se revoltar, dependendo do estado de espírito.
Colaciono, também, minha passagem favorita do livro:

"Não sonhemos a sabedoria; paremos, ao contrário, de sonhar nossa vida!
Não se trata de se impedir de esperar, nem de esperar o desespero.Trata-se, na ordem teórica, de crer um pouco menos e de conhecer um pouco mais; na ordem prática, política ou ética, trata-se de esperar um pouco menos e de agir um pouco mais; enfim, na ordem afetiva ou espiritual, trata-se de esperar um pouco menos e amar um pouco mais."

Na foto do post eu, o que não precisava falar, as bochechas entregam, bem serelepe em um dia da minha infância.
Saudosismo é pouco.

Cabe o belo trecho do poema de Fernando Pessoa, que li em um dos capítulos do livro "A Vida Como Ela é para Cada um de Nós":

"A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou."