segunda-feira, 13 de julho de 2009

Nada fora do todo

Qual pode ser nossa única doutrina?

Que ninguém dá ao homem suas propriedades; nem Deus, nem a sociedade, nem seus pais e ancestrais, nem ele próprio (- o contra-senso da representação, aqui por fim recusada, é ensinado por Kant, e talvez mesmo já por Platão, como "liberdade inteligível"). Ninguém é responsável por existir, por ser constituído de tal modo, por se encontrar sob estas circunstâncias, nesta ambiência. A fatalidade de sua existência não pode ser destrinchada da fatalidade de tudo o que foi e de tudo o que será. O homem não é a conseqüência de uma intenção própria, de uma vontade, de uma finalidade. Com ele não é feita a tentativa de alcançar um "ideal de homem" ou um "ideal de felicidade", ou mesmo um "ideal de moralidade". - É absurdo querer fazer rolar sua existência em direção a uma finalidade qualquer. Nós é que inventamos o conceito de "finalidade": na realidade não se encontra a finalidade...

Necessariamente, se é um pedaço de fatalidade, se pertence ao todo, se está no todo. Não há nada que pudesse julgar, medir, comparar, condenar nosso ser, pois isso significaria julgar, medir, comparar, condenar o todo... Mas não há nada fora do todo! O fato de que ninguém mais é feito responsável, de que o modo do ser não pode ser remontado a uma causa prima, de que o mundo não é uma unidade nem como sensorium nem como "espírito", apenas isto é a grande libertação - somente com isso é novamente estabelecida a inocência do vir-a-ser...

O conceito de "Deus" foi, até agora, a maior objeção à existência. Nós negamos Deus, negamos a responsabilidade em Deus: apenas assim redimimos o mundo.

(Crepúsculos dos Ídolos - Friedrich Niestzsche - Cap. VI Os Quatro Grandes Erros)